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Carol Bensimon: a cultura da não exclusividade

- by Dhin Akari

Há algo no ar: na ficção, na mídia e na vida real, o comportamento sexual não exclusivo tem aparecido com recorrência. Mas ainda há muitos mitos envolvendo a bissexualidade

Carol Bensimon: a cultura da não exclusividade Arte de Gilmar Fraga/Zero Hora
Foto: Arte de Gilmar Fraga / Zero Hora
Nos últimos meses, comecei a ler livros que tinham títulos do tipo Sexual Fluidity(“Fluidez Sexual”) e Notes For a Bisexual Revolution (“Notas para uma Revolução Bissexual”). Dei um tempo com a ficção a fim de compreender um pouco as discussões sobre sexualidade. Quer dizer, antes de tocar nessa literatura especializada, eu sabia que algo estava acontecendo, e não era só porque Kate Perry cantou que tinha beijado uma garota e gostado disso, nem porque uma parcela considerável das adolescentes do mundo inteiro está agarrando amigas em festas com tanta naturalidade. Não.
A evidência mais óbvia, para além do que a mídia me dizia sobre celebridades – Tom Daley, campeão olímpico de saltos ornamentais, começou a sair com um homem pela primeira vez, e Chirlane McCray, a primeira-dama de Nova York, tinha um histórico de relacionamentos com mulheres antes de se casar com Bill de Blasio – a evidência mais óbvia de uma mudança sociocultural em curso era a de que muitas de minhas amigas e conhecidas manifestavam um comportamento não exclusivo em suas vidas privadas. Em outras palavras: elas se envolviam sexual e afetivamente tanto com homens quanto com mulheres. Em uma só palavra: bissexuais.
É claro que havia, dentro dessa lógica que estou chamando de não exclusiva (nem hétero, nem homo), uma gama muito variada de desejos e comportamentos. Algumas dessas pessoas, por exemplo, tinham se engajado em relacionamentos longos com ambos os gêneros (não ao mesmo tempo, que fique claro), enquanto outras reservavam as relações sérias aos homens e às pequenas aventuras ao sexo feminino. Mas vou me concentrar em tudo isso mais adiante. Por ora, precisamos desfazer alguns mitos, evocar o sexólogo Alfred Kinsey e rabiscar um significado para a palavra bissexual.
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O senso comum não tem muitas coisas elogiosas a dizer sobre a bissexualidade. Bis costumam ser vistos como seres instáveis, promíscuos, confusos e eternamente insatisfeitos. Alguns são taxados de héteros “passando por uma fase”, outros de gays e lésbicas sem coragem para se assumirem como tais. Para a maioria, portanto, ser bissexual não parece sequer uma orientação válida, mas antes algo transitório, provisório, um estágio, enfim, a ser superado.
Sem dúvida, tal equívoco deve muito à teoria freudiana. Segundo Freud, todos nós nascemos bissexuais. Nosso desejo por ambos os gêneros, no entanto, teria uma vida curta, encerrando-se com o famoso Complexo de Édipo, momento em que nos tornaríamos heterossexuais (usualmente) ou homossexuais (excepcionalmente).
De lá para cá, estudos nas áreas da psicologia, sociologia, genética e neuroendocrinologia avançaram um bocado, mas os bissexuais continuaram mais ou menos um mistério para todo mundo. Isso explica porque a terapeuta cognitiva-comportal de Roberta, uma de minhas amigas bis, disse a ela, em 2004: “Você precisa se decidir”.
Alfred Kinsey com certeza se reviraria no túmulo. Nos já longínquos anos de 1948 e 1953, esse biólogo de formação sacudiu os Estados Unidos ao publicar seus célebres relatórios sobre a vida sexual norte-americana. Baseando-se nas milhares de entrevistas que realizou, Kinsey propôs que a sexualidade humana fosse entendida como um continuum, cujos extremos seriam a hétero e a homossexualidade. Foi a origem da escala Kinsey, uma escala de 0 a 6 em que 0 corresponde a uma atração exclusiva pelo sexo oposto e 6 a uma atração exclusiva pelo mesmo sexo. Os números de 1 a 5 representariam diferentes graus de bissexualidade.
Definir o que é ser bissexual, portanto, pode parecer difícil à primeira vista, uma vez que o termo deve abarcar uma variedade imprecisa de desejos e comportamentos. Além disso, essas duas coisas nem sempre estão em sintonia (o que teria um peso maior na formação de uma identidade?), fato que deixa tudo ainda mais complicado. Mas a complexidade é instrínseca à sexualidade humana, e aceitá-la me parece sem dúvida muito mais honesto do que tentar transformar um campo altamente subjetivo em uma ciência exata. Nesse sentido, tendo a simpatizar muito com a definição da ativista LGBT Robyn Ochs: “Eu me considero bissexual porque reconheço em mim o potencial de me sentir atraída, romântica e/ou sexualmente, por pessoas de mais de um sexo, não necessariamente ao mesmo tempo, não necessariamente da mesma maneira, e não necessariamente no mesmo grau”.
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As palavras de Ochs apontam para uma característica intrínseca à bissexualidade, característica esta que está no cerne da descrença em relação a sua própria existência: a bissexualidade dificilmente se apresenta como algo perceptível no instante presente. Com isso quero dizer que, se você encontrar minha amiga Alice de mãos dadas com outra mulher, vai depreender que ela é lésbica. Se encontrá-la com um homem, concluirá que é hétero. A identidade bi, portanto, só se constrói a partir de uma narrativa; é preciso conhecer o histórico das relações afetivas de Alice, bem como suas disposições e desejos em relação a ambos os gêneros, para que se tenha a real dimensão de sua sexualidade.
E as histórias de vida dessas garotas não podiam ser mais variadas. Vamos começar com Sofia, 24 anos (todos os nomes são fictícios, ok?). Sofia namorou uma menina por três anos, depois teve um relacionamento igualmente longo com um cara. Ela sempre achou muito natural o fato de se sentir atraída por ambos os gêneros, embora suas amigas mais conservadoras se refiram com frequência à sua “fase lésbica”.
– Não foi uma fase – explica. – Eu gosto de caras e gosto de mulheres, simples assim. Parece meio clichê dizer, mas não acho que o que a pessoa carrega no meio das pernas seja tão decisivo na hora de você se relacionar com alguém.
De fato, muitas mulheres bis costumam afirmar que se sentem atraídas “pela pessoa, não pelo gênero”. Isso, no entanto, não é uma regra. Em uma noite infernal do verão porto-alegrense, entro no skype para falar com Roberta, que está em algum quartinho europeu preparando uma tese de doutorado. Ela tem 30 anos. Nós costumamos trocar impressões sobre identidade sexual e afins. Nessa noite, Roberta me diz que o que ela espera de um gênero é diferente do que espera do outro. Sempre foi assim. Então começa a relembrar seus 20 e poucos anos:
– Eu gostava de jogar com as gurias. Tinha muito mais facilidade de ir a lugares gays e flertar com elas. Com caras, o sexo era ótimo, mas eu não conseguia acordar ao lado deles. Com mulheres, o sexo não era tão bom no início, mas eu gostava mais de estar com elas. Ainda que, sexualmente, não me completasse tanto.
Roberta agora tem uma relação monogâmica com uma mulher. 
Ainda preciso falar de Gabriela (estou deixando muitas amigas de fora, desculpa). Ela tem 24 anos e não lembra de alguma vez na vida ter se considerado hétero ou homo. A não exclusividade a acompanha desde os 13. Nunca namorou mulheres porque não gosta do “tipo de dinâmica que se cria” nos relacionamentos longos com o sexo feminino (excesso de discussões sobre a relação, pelo que entendi). É casada com um homem, e o casal costuma se envolver com outras meninas, sexual e afetivamente. Além da subverter o padrão monogâmico, Gabriela também gosta da bagunça de gêneros:
– As pessoas que me atraem hoje se apresentam de uma maneira que desafiam os rótulos de “homem” e “mulher”. É isso. Eu me sinto atraída por quem apresenta seu gênero de uma forma não tradicional.

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O potencial subversivo da bissexualidade é o tema do livro da israelense Shiri Eisner, Notes for a Bisexual Rrevolution. Eisner vê a orientação bissexual não como uma categoria, mas como uma espécie de não categoria que, no fundo, está negando todo e qualquer rótulo. Alguns autores são citados para corroborar sua tese, como o norte-americano Kenji Yoshino, que afirma que o potencial subversivo da bissexualidade seria maior do que o da homossexualidade, uma vez que a primeira não pode ser “heterossexualizada” como a segunda ao ser imaginada (erroneamente, claro) como uma simples inversão.
Como no livro de Eisner, a palavra “revolução” também é usada no título de um documentário francês de 2008 sobre bissexuais (Bisexual Revolution, ou La Bisexualite: Tout un Art?, de Laure Michel e Eric Wastiaux, disponível na íntegra em vimeo.com). E, em uma compilação de depoimentos de bis do mundo inteiro, encontro e destaco este do ativista espanhol Miguel Obradors Campos: “A bissexualidade é a sexualidade da pós-modernidade, uma alternativa ao atual sistema polarizado hegemônico, bem como ao racionamento normativo da afeição sexual. A bissexualidade é, sem dúvida, uma reivindicação da liberdade humana e das belezas que vão além das fronteiras que tentam restringi-las”.
De fato, a ideia de que a bissexualidade teria algo de transgressor aparece com alguma frequência. Em um momento histórico em que os gays – ao menos no Primeiro Mundo – já conquistaram alguns direitos básicos, incluindo o do casamento, uma das instituições mais antigas e normativas de nossa sociedade, talvez isso faça mesmo sentido.
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Nesta altura, você deve estar se perguntando: por que há mais mulheres bis do que homens? A psicóloga Lisa Diamond expõe uma bela teoria em Sexual Fluidity: Understanding Women’s Love and Desire. Segundo Diamond, uma combinação de fatores culturais e biológicos faz com que as mulheres tenham uma sexualidade mais fluida. O desejo sexual feminino, por exemplo, está menos submetido a hormônios do que o masculino, o que acaba fortalecendo a importância dos fatores socioculturais. Isso não quer dizer que todas as mulheres sejam bissexuais, mas que muitas têm um potencial que pode vir à tona em determinadas circunstâncias.
A reverência da mídia e das artes à beleza feminina também é algo que deve ser levado em conta. Não podemos achar que séculos de culto ao feminino não teriam uma influência também nas mulheres, a ponto de borrar as fronteiras entre o desejo de “ser” e o desejo de “ter”.
De 1995 a 2005, Diamond conduziu uma pesquisa com 89 mulheres que se declaravam lésbicas, bis ou “sem rótulo” (unlabeled). A cada dois anos, elas relatavam à psicóloga suas experiências e os níveis de atração pelos dois gêneros. As conclusões são interessantíssimas. Se a bissexualidade fosse realmente um estado transitório, a tendência era que, com o passar do tempo, essas mulheres passassem a se auto-declarar lésbicas ou heterossexuais. Pois o que aconteceu foi exatamente o contrário, com a maioria delas seguindo o caminho da não exclusividade de gênero.
Eu chamaria isso de uma revolução silenciosa.

* Escritora, autora de Todos Nós Adorávamos Caubóis
Fonte: http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/noticia/2014/04/carol-bensimon-a-cultura-da-nao-exclusividade-4485475.html

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